eu nao acho mais que vou morrer
eu vou, é claro, mas não agora
e talvez se fosse, seria mais leve
parece que vou viver o resto da vida, longa e miserável, com essa pedra no meu peito, cinza. #909090, como o cinza da televisão, mais sem graça impossível.
cinza e cheia de miasma em volta, corroendo meus orgãos, meu estomago, minhas entranhas.
meus ossos vão quebrar, frageis, em mil pedacinhos pontiagudos.
minha coluna vai desmontar.
tem uma bola na minha garganta.
eu nao cosigo ver, mas eu sei que ela é amarela, amarelo-mostarda.
essa bola fede a podridão.
essa bola me impede de respirar e deixa meu rosto inchado e cheio de rugas.
eu estou cheia de rugas.
minha pele murchou. não quero nunca mais me olhar no espelho.
não quero que ninhuém nunca mais veja meu rosto.
nem meu corpo. manchado, como essas olheiras em torno dos olhos. cansaço.
eu cansei. eu morri já, de certa forma. mas sei que eu não vou morrer. não agora, não disso.
Disso eu vou viver a vida inteira, infeliz.
eu sempre fui assim, tudo bem, é um reencontro com a solidao, só que agora com as marcas do tempo, com a podridão da sociedade, com o fracasso das relações.
eu não quero me relacionar com mais ninguém.
mentira, tem umas pessoas que me fazem rir. e quando eu fumo maconha, é mais fácil.
mas tudo bem, não preciso cortar 100% das relações, pode ser só 95%. pode ser só ele. eu posso só cortar ele e então eu vou poder chorar em paz e vou poder ser infeliz em paz. sem essa expectativa de ser bem resolvida, adulta e interessante. eu vou poder até deixar de querer ser lisa como aquelas modelos horrorosas. vou parar de me preocupar em ser gostosa como aquelas vagabundas vulgares que eu desprezo. vou poder ser só eu, linda, bela e fria. tavez até frigida. ou talvez eu possa entrar no grupo dos desbundados e dizer foda-se pra todo esse recalque. que a sociedade é muito recalcada. e eu estou recalcada demais.
acho que expuguei umas coisas estranhas.
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